1)) A NGB (Nomenclatura gramatical brasileira,1959), que unificou a nomenclatura das gramáticas brasileiras, não faz distinção entre complementos verbais preposicionados, ou seja, classificando todos os complementos introduzidos por preposição necessária como objetos indiretos.
2)) A maioria dos gramáticos segue a NGB, entretanto... lá vem polêmica...há dois gramáticos de peso, Rocha Lima e Evanildo Bechara, que fazem a separação entre complemento relativo(CR) e objeto indireto(OI). A estudiosa Vera L. Rodrigues(2003) é a favor da separação, seguindo o pensamento de Lima e Bechara. Já Olmar G. da Silveira (1996) argumenta que a questão necessita de estudos mais profundos. E Adriano da Gama Kury (1991) diz: " nem doutrinária, nem,muito menos, didaticamente, nos parece aconselhável tal separação: em primeiro lugar, não se fez ainda, em nossa língua, o estudo definitivo que está por merecer o objeto indireto, apesar da tentativa de Rocha Lima (Uma Preposição Portuguesa); e a presença obrigatória da preposição sem valor cirscuntacial é suficiente para a caracterização estrutural dessa função sintática."
3)) O OI complementa verbos transitivos indiretos (VTI) e verbos transitivos diretos e indiretos (VTDI) que necessitam de um complemento preposicionado. Aliás, para Lima (2000) e Bechara (2002,2009), os OIs representam à pessoa ou à coisa "a que se dirige ou destina a ação ou estado que o processo verbal expressa" (Lima,2000). São sempre introduzidos pelas preposições A (mais comum) e PARA, e podem se substituídos, na terceira pessoa, pelos pronomes átonos lhe/lhes.
Dar esmola a um mendigo / Dar-lhe esmola (R.Lima)
Mandei flores para a noiva / Mandei-lhe flores(R.Lima).
4)) Já o CR é ligado ao verbo pelas preposições a ,com,de,em,etc. Tendo valor de objeto direto(OD) (Lima, 2000). Ele não representa o ser ou a coisa beneficiado ou prejudicado na ação verbal, mas o ser sobre o qual recai a ação. E não pode ser substituído por lhe/lhes, mas por pronome pessoal tônico ela (s)/ele(s) precedido da preposição exigida pelo verbo.
Gosto de Alice.
Gosto-lhe(errado)
Gosto dela(correta)
Semanticamente o CR está mais próximo do OD (o ser sobre o qual recai a ação.), mas formalmente está próximo do OI (pela exigência da preposição).
Amo você (OD). / gosto de você (CR)
5)) Como diferenciar OI do CR quando introduzidos pela preposição A?
A)Prefiro ele a você.
B)Desejo felicidades a você.
A frase A não representa um ser beneficiado, não pode ser substituído por lhe, por isso é CR. Já a frase B representa o ser beneficiado e pode se substituído por lhe: Desejo-lhe felicidades.
6)) Bechara (2009) afirma que é quase nula a frequência numa frase de OD com CR.
A jovem pôs os livros (OD) na estante (CR).
Continua o eminente gramático dizendo que muitos verbos alternam a sua construção com OD ou CR :
ajudar a missa (OD) / ajudar à missa (CR).
7))Para Lima, OI não se pode apresentar sob forma oracional, isto é , não existe oração subordinada objetiva indireta. Bechara diz o contrário.
8)) Apesar de Marcelo Rosenthal (2011) dizer que nos concursos públicos, não é feita tal distinção (CR x OI), sendo os dois casos absorvidos pelo objeto indireto. No entanto...
Vejamos como isto caiu numa prova...
(IBADE- PREF. DE VILHENA/RO-ADVOGADO-2019)
A oração subordinada transposta substantiva aparece inserida na oração complexa exercendo funções próprias do substantivo. Em qual das alternativas abaixo a oração subordinada transposta substantiva aparece exercendo função de objeto indireto?
(A) Enildo dedica sua atenção a que os filhos se eduquem (GABARITO)
(B) O pai viu que a filha saíra
(C) Todos gostam de que sejam premiados
(D) A verdade é que todos foram aprovados
(E) Convém que tu estudes
Todas as frases da questão são da gramática do Bechara. REPARE na letra C...Isso mesmo, ela não foi considerada como OI, o que nos faz presumir que foi encarada pela banca como CR. Na reposta aos recursos, a banca usa a gramática do Bechara para defender o seu gabarito. Como não havia bibliografia específica para o concurso, esta questão deveria ter sido anulada.
Referências
BECHARA, Evanildo. Gramática escolar da língua portuguesa. 1.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37.ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira & Lucerna, 2009.
KURY, Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática . 5.ed. São Paulo : Ática, 1991.
LIMA, Rocha. Gramática normativa da língua portuguesa. 38.ed. Rio de Janeiro. José Olympio, 2000.
RODRIGUES, Vera Cristina. Dicionário Houaiss: Verbos, conjugação e uso de preposições. 1.ed. Rio de Janeiro : Objetiva ,2003.
ROSENTHAL, Marcelo. Gramática para concursos.5.ed.Rio de Janeiro. Campus concursos, 2011.
SILVEIRA, Olmar Guterres da. Reflexão sobre os fatos de sintaxe(p.42-47). Padrões frasais do Português(p.48-51). In FREITAS ,Horácio Rolim de (org). A obra de Olmar Guterres da Silveira. Rio de Janeiro : Metáfora ,1996.
Nenhum comentário:
Postar um comentário